Nos últimos dias tenho pensado muito sobre as escolhas que fazemos na vida e no desenho gráfico que melhor representaria nossa jornada. Millôr Fernandes escreveu que “viver é desenhar sem borracha”. Na primeira vez que li esta frase, a imagem que veio em minha mente foi um pouco diferente de um tracejado contínuo e indestrutível, talvez a mais fiel ao texto. Imaginei o contrário, só consegui pensar em uma linha sendo traçada à lápis, perseguida de perto por uma borracha que apaga o que acaba de ser traçado impiedosamente.

Por vezes faltam evidências de que o passado existe. Aliás, existir não existe. Mas as evidências podem comprovar que, ao menos, ele existiu.

Particularmente, não enxergo o desenho da vida como uma linha, mas como uma forma extremamente ramificada, semelhante a estrutura de um neurônio. Um mapa complexo, um labirinto, que vai se formando à nossa frente, com dezenas de opções de rotas. Mais ou menos como um mapa absurdamente complexo no Waze, mas com apenas uma linha roxa entre todas as demais brancas: a rota que decidimos/achamos que devemos seguir.

A vida é feita de escolhas. Cada escolha uma renúncia. Quem nunca ouviu? As ramificações são bifurcações entre escolhas e renúncias. Penso que seria mais razoável considerar que a cada escolha, são pelo menos 1 milhão de renúncias.

Caminhar por estas rotas, com ou sem Waze, é sempre muito complexo. Fazer escolhas é difícil. Muito difícil. E talvez, mais difícil do que fazê-las, seja manter convicção pós-decisão, não deixar-se seduzir pelo pretérito do que poderia ter sido. Do que poderíamos ter vivido. De qual teria sido o caminho mais certo. Onde a vida poderia ter dado se tivesse virado à esquerda na quadra passada. Nas ruas, estes desvios não nos levariam muito longe de onde estamos agora. Na vida, estes pequenos desvios podem nos levar à galáxias de distância.

Certa vez li um trecho de um filósofo norueguês/dinamarquês. Peço desculpas por não me lembrar de muito mais além disso. Realmente só lembro do trecho e de que ele morava lá para cima, próximo aos melhores pontos para observar a Aurora Boreal (que, aliás, é um privilégio e tanto). Neste trecho, o escritor falava sobre sua relação com Deus e a dádiva/sacanagem que nos foi dada ao ganharmos nossas vidas: um espaço de tempo com enorme possibilidade de escolhas, mas nenhuma evidência clara do que realmente devemos fazer.

O livre-arbítrio divino é um presente, podemos fazer o que quisermos da vida, mas uma prisão angustiante à hesitação e a falta de qualquer referência de que o caminho que escolhemos é o melhor para nós e/ou para Ele. Deus teria, então, segundo ele, nos jogado aqui sem direção. Uma analogia que me lembra bastante alguns dos reality shows que gostamos de assistir, como “Largados e Pelados”. E, que fique claro, esta é uma oportunidade e tanto. Uma angústia e tanto. E não há aqui um juízo de valor ou uma crítica à vontade divina.

Muitas coisas na vida podem ser boas, ruins e dotadas de outras classificações difíceis de expressar em palavras, mas possíveis de sentir. Não bastasse a dificuldade de escolher nossos caminhos, ainda temos o desafio de decifrar nossos sentimentos com um nível de consciência e linguagem nem sempre capazes de decodificar. Mas este é outro assunto.

A questão é: a vida é feita de escolhas. E isso pode ser um tanto angustiante. Mas considere que isso também nos dá a possibilidade de escolhermos nossas vidas. É também uma escolha nossa como lidar com isso. Ao olhar o mapa de nossas jornadas, podemos tanto imaginar e remoer os caminhos não escolhidos, como seguirmos convictos com aquele em vigor.

Exercitar as possibilidades do que não foi realizado pode ser um passatempo sedutor, quase que uma ficção do que poderia ter sido tua realidade, mas dificilmente responderá aquela pergunta: como teria sido? A imaginação fornece poucos detalhes, elementos que só a realidade poderia fornecer. Numa versão idealizada imaginada, quase sempre, a concorrência com o real se tornará desleal e com prejuízos concretos para o que efetivamente estamos vivendo.

Por outro lado, projetar bifurcações pode ser um exercício interessante, se considerado o futuro, quando ainda não há realidade. Nos projetar em cada um dos trajetos nos permitirá experimentar sensações, desenhar cenários, ainda com uma grande pitada de ficção. Mas uma ficção que pode tornar-se referência para criarmos a nossa realidade. Com a possibilidade de concretizá-la e encontrar satisfação. Mas também de chegar por lá e ver que não era bem assim. Quem nunca idealizou um encontro, uma viagem, um lugar e, na prática, a emoção foi outra?

Discordo do amigo filósofo, que mora próximo à Aurora, na ideia de que Deus nos colocou aqui sem referência. Aliás, cabe uma interpretação sua se realmente foi Deus que nos colocou aqui, não entrarei no assunto. Mas o ponto é que: não acho que estejamos tão desprovidos de referência nesta jornada.

A imaginação é a bússola. Mas que precisa ser treinada. Para não cairmos na armadilha de direcionar nossa jornada para o passado, mas para o futuro. E para que ela saiba conviver em harmonia com a realidade que, não raro, discorda do que idealizamos e nos apresenta uma vida diferente. Mas quem disse que diferente é pior?

Nossa imaginação precisa ser treinada a não ser tão pretensiosa. Se a vida é feita de escolhas, precisamos confiar nas escolhas que fazemos e, principalmente, no acaso que nos escolhe. Temos uma capacidade, uma angústia, uma dádiva de influenciar o futuro. Mas as vezes esquecemos que temos talvez uma maior ainda que é deixar o presente e o futuro nos influenciar.


Esse texto faz parte do projeto #OhHappyMonday e foi enviado, por email, dia 25/09. Se você também quer receber novidades em primeira mão, ganhar descontos e participar de eventos exclusivos, clique aqui!

 

Comentários

comentários