Hoje vamos falar sobre “chegar lá”.

Não sei se você sabe, provavelmente não, mas antes (e até um pouco durante) de começar esta história de A Grande Escola/Humans at Work que, espero eu, faça parte da minha vida por muitos anos, eu fui publicitário e trabalhei dentro de uma agência de propaganda. Inclusive, por muitos anos, esta foi a trilha do meu “chegar lá”.

Eu tinha as coisas bem desenhadas, clareza do passo a passo que me levaria ao céu. Era quase como jogar amarelinha, mas podendo pisar com os dois pés.

Certa vez, lá na agência, ajudei a criar um comercial para um cliente que nunca foi ao ar, mas nem por isso deixou de ser um dos meus favoritos. O cliente era uma instituição de ensino (daquelas com turmas do infantil à pós-graduação) e a campanha era para divulgar a marca como um todo, é o que a gente chama de “institucional”.

No filme, um rapaz com seus 20, quase 30 anos caminhava em direção a uma sala de reuniões. Ele tinha uma apresentação a fazer. Nervoso, dava cada passo com hesitação e respiração ofegante. Momentos antes de entrar na sala, desvia o caminho e entra no banheiro que ficava ao lado, uma rota de fuga para o desafio que parecia não dar conta de enfrentar.

No banheiro, pálido, o rapaz se olhava no espelho, afrouxava o colarinho, lavava o rosto e respirava fundo, em pânico. Para completar o pânico, um fantasma surge ao seu lado. O fantasma do passado. Mas aquele fantasma camarada. Era ele mesmo, com cerca de 9 anos de idade, utilizando o uniforme da instituição (sim, claro que ele estudou lá, é uma propaganda!).

Ele olha com espanto para o menino, que devolve para ele surpresa e empolgação. “Uau! Isso é seu?”, dizia ele apontando para o smartphone que jamais imaginou que pudesse existir. Logo um outro fantasma surge, era ele aos 14. Vem outro, dessa vez ele aos 20, todos com uniforme e/ou bolsas da instituição.

Os fantasmas começam a conversar entre si e com o rapaz e não param de se surpreender com o fato de enxergarem o próprio futuro.

“Você está numa reunião de negócios? Ufa, eu jurava que o pai tinha razão quando dizia que a gente não ia chegar a lugar nenhum do jeito que estávamos vivendo”.

“Você está nervoso com um reunião com engravatados? Cara, para quem entregou aquela cartinha para a Ritinha isso não é nada”, lembrava o menino de 14.

“Lembre do que o Prof. Roger falou na apresentação daquele trabalho, respire fundo e considere que ninguém conhece mais do seu trabalho que você”, diz o mais velho.

Flashes de vida passavam pela cabeça do rapaz, relembrados por versões dele mesmo no passado. Ele respira fundo, encoraja-se. Os fantasmas somem, mas agora ele está satisfeito e empoderado. Entra na sala com confiança e aparece marca da instituição de ensino e alguma locução falando sobre formação para a vida toda. Final feliz.

Era uma propaganda, mas a partir dali passou a ser vida.

Quantas vezes não me vi incerto do meu caminho e, frustrado, pensando que não daria conta, de que poderia ter tomado outra decisão ou de que o “lá” era distante demais? E você, já não se sentiu assim?

Temos uma habilidade única de desvalorizar nosso presente e uma capacidade quase natural de querer chegar “Lá”. Mas aqui mora um probleminha: “Lá” não é “Aqui”. Estamos falando de um modelo mental que pode levar a um constante vazio, uma constante frustração, uma constante incompletude.

O filme descrito acima, apesar de aprovado pelo cliente, nunca foi ao ar na TV, mas na minha cabeça, de tempos em tempos, ele é exibido.

Lembro dele como um exercício, toda vez que me vejo desapontado com o que construí, quando olho demais para a grama verde do vizinho. A diferença é que, no lugar do rapaz, estou eu e meus fantasmas, minhas versões de 3, 5, 10, 15 anos atrás. E elas quase sempre gostam muito mais de mim do que eu mesmo.

Estão sempre muito empolgadas e descrentes das coisas que fiz na vida, da carreira profissional ao encontro com o Molejo, dos lugares que visitei ao lugar que moro. Coisas que eu simplesmente por vezes não consigo enxergar, por estar olhando fixo no “Lá”, ao invés de entender o que está se passando por aqui. É terapêutico. Mas não somente.

Esta percepção, mais do que me fazer me sentir bem no momento, vencer uma frustração, tem um papel ainda mais importante: me revigorar e colocar no eixo em direção ao “Lá”. Afinal, não há nada de errado em querer chegar “Lá”, desde que a gente não esqueça que quem vai nos levar “Lá” é o “Aqui” e, quanto mais feliz, confiante e amante de si, provavelmente mais capazes seremos de construir esta jornada.

Por isso, quando estiver incerto/a se vai chegar “Lá”, convide seus fantasmas para uma conferência. Em geral, eles vão encher tua bola. E, caso o caminho os deixe descontentes, fica um convite para a mudança. Afinal, você não vai seguir tocando uma vida que desaponta a você mesmo, vai?

E aí, o que seus “eus” do passado têm a dizer sobre o você de agora? E qual é seu “Lá”? Me conta aí. Ando demorando um pouco por conta do volume de e-mails, mas prometo responder a todas as mensagens.


Esse texto faz parte do projeto #OhHappyMonday e foi enviado, por email, dia 14/08. Se você também quer receber novidades em primeira mão, ganhar descontos e participar de eventos exclusivos, clique aqui!

 

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