No decorrer da vida, a medida que vamos gostando de algumas coisas e/ou dando importância a outras, mesmo que sem querer, formamos uma rotina. Um roteiro. Um ciclo de conforto. Todo mundo tem o seu. Um hábito ao acordar, o café, o exercício, a esticada nos dedos, o caminho, a caixa de e-mails, a pauta, a oração, e por aí vai. Cada um tem a sua rotina. Uma zona de segurança.

Um comportamento vivido em looping, com um papel claro de manter nossa vida em ordem e, o mais importante, nos lembrar de quem somos.

Talvez, formar rotina, seja uma forma de firmar identidade. Encontrar uma verdade. Comportamentos repetidos em excesso deixam de ser apenas ações, transformam-se em quem somos. Não à toa, mudanças bruscas de direção podem nos cortar ao meio. O rompimento de um relacionamento. A demissão inesperada. A morte de alguém próximo. O término de um ciclo (o fim de uma graduação ou a aposentadoria). O fechamento da padaria.

Todos acontecimentos que mudam vidas. E rotinas.

Rotina é uma coisa boa, não vou negar. É como aquele filme que queremos ver no final de um domingo. Começamos a assistir já sabendo, mais ou menos, como vai terminar. Uma vida com emoções, claro. Mas emoções controladas. A gente sabe que vai dar certo. Mas será que certo é o bastante? Considerando que o tempo é o nosso bem mais raro e corre, será que se entregar fácil a uma vida rotineira é a melhor forma de viver a nossa jornada aqui na Terra?

A quebra de rotina, pensando assim, pode ser sedutora. Um destino desconhecido. Uma caminhada sem rumo. Uma conversa com quem você nunca conversou antes. Uma nova vida. Quem nunca pensou em recomeçar?

Não pela vida estar ruim da forma como está, mas para viver algo novo.

O diferente fascina, enche de vida. Talvez por ser de fato uma nova vida. Tenho um amigo que volta e meia diz: “uma vida é muito pouco”. Uma vida sem rotina talvez seja a forma mais próxima de viver mais de uma vida.

Mas uma vida solta nem sempre é algo muito suportável. A raiz traz sentido. A falta de um mesmo caminho, um mesmo ritual, pode significar também uma maior dificuldade em definir quem somos. Uma identidade criada ainda é uma identidade que pode ser tocada. E a fluidez, não pode resultar em um vazio?

A relação entre o possível peso de uma rotina e a “leveza” de uma vida mais solta é uma balança presente na vida de qualquer pessoa.

Talvez você já tenha pensado sobre. Talvez já tenha sentido. Talvez lido. A insustentável leveza do ser. Um clássico de Kundera que explora e, o mais importante, não oferece conclusão alguma de qual é o caminho mais adequado à vida. Porque talvez não haja.

Talvez a questão esteja no mix. Na manutenção de alguns hábitos e na destruição de outros. Na mudança de uma rota, mas em direção ao mesmo trabalho. Desvios curtos, leves, mas não leves o suficientes a ponto de nos deixar livres do peso da rotina, do peso da existência, do peso do significado.

Porque são necessários.

Pequenas quebras de rotina são desvios singelos, mas também necessários. Um respiro para entrada do novo, para breve desconexão do que somos, para um breve recomeço, para uma nova vida que pode começar dentro da vida de sempre.

Quebras de rotina nos fazem lembrar que estamos vivos. Afinal, uma vida sempre igual pode facilmente se distanciar da realidade. O real é imprevisto. Um acaso. E mesmo a rotina mais regrada precisou de algum lugar para começar. O que hoje é rotineiro um dia já foi novo.

Hoje, fala-se muito de equilíbrio, mas muito se confunde também o significado de equilíbrio, tratando ele como constância, continuidade. Equilíbrio talvez seja uma balança em movimento. Ora leve. Ora pesada. Ora de rotina. Ora de imprevisto. Que vai se movendo, uma ponta de cada vez, nos mantendo próximos do centro.

Mas nunca parado nele.

Porque talvez seja o movimento que nos deixe vivos. Portanto, se a vida pesa por aí, antes de pensar em grandes mudanças, que tal colocar o balanço para se mover para outra ponta através de pequenas quebras de rotina?

Encontre a leveza de uma mudança de um caminho, de uma hora a mais ou a menos na cama, de um novo restaurante, de um novo escritório (nem que seja a varanda de casa). Quebre sua rotina. Viva sua rotina.


Esse texto faz parte do projeto #OhHappyMonday e foi enviado, por email, dia 24/10. Se você também quer receber novidades em primeira mão, ganhar descontos e participar de eventos exclusivos, clique aqui.

 

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