Apesar de muita gente dizer que não combina com minha personalidade, sou louco por futebol, não perco um só jogo.

O Coritiba (meu time), jogou a última partida do campeonato em Chapecó/SC, cerca de 6 horas e meia de carro de Curitiba, onde moro. A partida era importantíssima, precisávamos vencer para permanecermos na primeira divisão. Se você não acompanha futebol, entenda que cair para segunda divisão é a pior coisa que pode te acontecer.

Ir até lá parecia insanidade, ainda mais precisando estar aqui na segunda-feira cedo. Mas como paixão e sanidade não combinam, quando me dei conta era domingo e eu estava no carro com ingressos na mão e um longuíssimo caminho pela frente. Chegando lá, foram mais 3 horas exposto a um sol de deserto, sem nenhum tipo de proteção, 1 gol nosso e 2 do adversário, sendo o último deles no último lance do jogo.

Sim, a pior coisa que poderia acontecer aconteceu. Fomos rebaixados. Sim, estou todo queimado. E ainda tinha mais uma viagem de quase 7 horas de carro pela frente, era preciso voltar. Chegaria em casa quase na hora de acordar.

Voltando de lá, a tristeza e o cansaço me faziam repensar a vida e especialmente minha relação com o futebol.

Meu pai mesmo considerava uma loucura o que pretendia fazer, não conseguia ver sentido em fazer uma viagem longa e arriscada, um bate-volta de 17 horas, tudo isso para assistir a um jogo de futebol. “Como não conseguia ver o sentido?”, questionava. Não sabia argumentar, mas sabia que havia algo ali e fui atrás disso. Na volta, me sentia esvaziado. De fato, talvez não fizesse sentido. E ainda haviam pelo menos mais 6 horas pela frente.

O questionamento, além de tristeza, me trouxe uma pergunta: por quê? Racionalmente, tentei entender o papel do futebol na minha vida. Tentei pensar nas minhas primeiras experiências, com 5/6 anos de idade, e como hoje, 25 anos depois, o Coritiba ainda consegue mexer comigo desta maneira. Pensei que teria uma reunião importante logo na chegada e que estaria um caco e mal-preparado para ela. Eu poderia ter ficado em casa. Eu poderia ter me preparado. Eu poderia ter assistido ao jogo pela televisão, sem queimaduras e com uma visão melhor. Por quê?

Simplesmente, foi algo que não deu para responder. A pergunta só me fez pensar em outras coisas que faço da vida, inclusive este texto da série “Oh Happy Monday”, que sabia naquele momento, seria difícil de encaixar em um dia tão corrido. Por quê?

Para algumas questões, a indagação vem acompanhada de explicações claras e convincentes. Para outras não. Diante disso, naquele momento, chego a conclusão de que o futebol não é um hobbie, mas um estorvo na minha vida. Decido eliminá-lo da minha mente, economizaria horas e um dinheiro valioso. Faço a conta e percebo: 70 jogos no ano, plano de sócio, pay per view, estacionamento. Dá para fazer uma viagem internacional. Sem saber o porquê, torcia tão intensamente pelo Coritiba, decido abandoná-lo. Não fazia sentido fazer algo sem um porquê.

Quem disse que a memória é produto da mente? Hoje acordei e só consegui pensar no que queria esquecer. Tentar esquecer é o maior sinal de que a lembrança persiste. Aquele pensamento não funcionou. Não para o abandono do esporte. Mas funcionou para um outro questionamento: por que fazemos o que fazemos, ou melhor, por que mesmo temos que ter um porquê para fazermos o que fazemos?

Será que tudo na vida precisa de objetivo para ter sentido? E quantas coisas não deixamos de colocar em prática, pela falta deste porquê? “Eu até quero, mas não tem um porquê agora”, quem nunca disse? Já não seria a presença do desejo motivo o suficiente? Já não seria estar vivo motivo o suficiente? Por vezes, convivemos com a noção de que a mente dá as ordens e comanda o restante do corpo. Não seria o corpo o dono da mente? Como parte, ela tem seu papel. Mas, às vezes, precisa ficar de lado. Precisamos confiar na sabedoria do instinto.

Que a gente possa respeitar mais a nossa vontade, o nosso sentimento. Que a razão não seja a guia de tudo e que a gente possa correr quando nossas pernas pedem, comer quando nosso estômago grita e viajar quando nosso coração manda.

Agir por instinto não é agir sem um porquê. É simplesmente não conhecê-lo.

Que a gente possa aceitar, respeitar e nos autoconhecer a partir dos nossos comportamentos, mesmo os aparentemente sem sentido.

Uma semana viva, com muitas ações e sem tantos porquês.


Esse texto faz parte do projeto #OhHappyMonday e foi enviado, por email, dia 04/12. Se você também quer receber novidades em primeira mão, ganhar descontos e participar de eventos exclusivos, clique aqui.

 

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