Mais uma semana em um ritmo diferente. Para alguns, uma volta de um feriado prolongado. Para muitos, o horário de verão.

Eu fui um daqueles que emendou o feriado, ao menos na ausência do escritório. Uma mensagem aqui, um e-mail ali, uma rápida passada pelo computador e o trabalho estava feito. Tive tempo para curtir uma espécie de mini-férias. Com direito a um passeio absolutamente tradicional e já meio fora de moda para quem mora aqui na região de Curitiba: um dia em Morretes, com trajetos realizados pela estrada da Graciosa e pelos trilhos do trem.

Ir e voltar de Morretes por este caminho é o tipo de coisa que já não faz mais sentido como deslocamento, o que o mantém sendo utilizado é a vista. Mas, com o passar dos anos e a valorização do minuto por sua raridade, o preço da vista se torna cada vez mais alto. Não o preço monetário (se bem que o trem não é algo muito barato), mas o preço do tempo. O quanto você está disposta/o a investir da sua vida para viver determinada experiência?

A descida pela Graciosa é um desafio à lógica e à “produtividade”. Escolher a estrada histórica, em detrimento da via mais utilizada atualmente, é reduzir propositalmente a média de velocidade de 110 km/h para 20 km/h e aumentar proporcionalmente o tempo de duração, em meio a uma estrada sinuosa e cheia de trepidações, mas com algumas paisagens de tirar o fôlego.

Voltar pelos trilhos do trem propõe uma troca ainda mais contrastante. Sai o carro e o retorno rápido após um dia cansativo, entra o vagão antigo, o calor e as quase 5 horas de viagem com um animador munido de microfone e piadas à bordo, mas com paisagens ainda mais impressionantes.

Já que estamos falando de contrastes devo te contar que, apesar destes e-mails muitas vezes carregados de emoção, na maior parte do tempo sou visto como uma pessoa extremamente racional e de poucas emoções. Do tipo que até entende as belezas do trajeto, mas não consegue se desapegar do entendimento de que o custo monetário, de tempo e físico são desproporcionais aos poucos minutos de emoção do passeio.

Sendo assim, confesso, jamais teria feito este trajeto por conta própria, fui pela parceria. Precisei me policiar para não me deixar dominar pela “sofrência” e transformá-la em reclamação. Foi difícil.

E a dificuldade não veio só para mim, mas até para os mais animados com o passeio. Especialmente na volta de trem. Foram 9 ou 10 paisagens de tirar o fôlego, com no máximo 10 segundos de vista para cada. As demais horas foram de paisagem repetitiva, lenta, quente, desconfortável, com todo cansaço acumulado do dia.

Pouco a pouco as irritações iam aparecendo no vagão. Foi sofrido. Já não havia mais posição para o corpo. A mente já tinha dificuldade de distinguir realidade. O cochilo era certeiro. A chuva começava a cair e um problema técnico ainda segurou o trem nos trilhos por mais tempo do que previsto.

Neste momento não me aguento e me queixo para minha namorada, já era muito tempo de viagem. Ela pondera com otimismo e ressalta que o passeio será provavelmente uma lembrança de infância das crianças que estavam com a gente e que é legal estar vivendo isso com elas.

“Bom, a parte boa é que não precisaremos fazer este passeio novamente”, tento ser otimista, mas com muito mais ironia do que qualquer outro sentimento. Enquanto soltava estava frase, uma outra palavra ressoava na minha cabeça: “lembrança”.

A palavra gerou eco na mente e trouxe à tona, em segundos, dezenas das melhores experiências que vivi: viagens, shows, paisagens, dias. Porém, as lembranças se apresentaram como icebergs. Primeiro aparecia o momento mágico (a ponta): uma vista, uma música, uma risada.

Em seguida vinha o que estava por baixo: um deslocamento de 2 dias, uma cama de hostel que nem deveria ser chamada de cama, as dores nas pernas e nos pés depois de tanto tempo sem sentar. As minhas melhores lembranças também apresentavam a conta do passeio de trem: uma desproporção entre horas de sofrimento e minutos de tirar o fôlego. Mas o que ficava para sempre?

Percebi que o sofrimento, extremamente presente, passaria rápido. Ficariam para a posteridade os instantes, os 10 segundos de uma vista, ou os milésimos de segundo do início de um sorriso. Ninguém lembraria por muito tempo da parte dura do passeio. Isso me trouxe um alento para o restante do caminho que faltava ser percorrido, mas principalmente um novo olhar para a vida.

Talvez nossa jornada seja mais ou menos como esses programas de feriado. Horas e mais horas de paisagens repetidas, de cansaço, de desconforto, para minutos que fazem tudo valer a pena. O esforço descomunal de uma subida à montanha, para uma breve contemplação lá de cima. Olhar as coisas assim me fez pensar que estamos sempre no caminho para produção das nossas melhores lembranças.

Seja em uma reunião pesada ou em uma lenta subida pela Serra do Mar, estamos no caminho para a produção do que ficará marcado para nossas vidas. Ou até do que ficará marcado como nossas vidas.

Este olhar me fez enxergar com mais carinho para o trajeto e até tirar o peso da “sofrência” que ele provocava. O trajeto, olhado com carinho, pode também se transformar em instante. Temos o poder de ressignificar. Que a gente possa ter mais paciência e capacidade de capturar instantes. Que a gente possa produzir grandes lembranças, mas também viver os momentos que nos levam à elas com muito prazer.


Esse texto faz parte do projeto #OhHappyMonday e foi enviado, por email, dia 16/10. Se você também quer receber novidades em primeira mão, ganhar descontos e participar de eventos exclusivos, clique aqui.

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