“Se está corrido é bom sinal”, ouvi de alguém hoje. Você já deve ter ouvido algo assim, mas será que é mesmo?

Nos papos de corredores e elevadores, o “correria?” vem tomando o lugar do “tudo bem?”. Uma pergunta simbólica, já que no fundo tudo que o outro espera é uma resposta de confirmação. No caso do “tudo bem?”, um sorriso e um “beleza” (experimente dizer “não” e veja um fluxo ser quebrado).

No caso do “correria?”, a resposta automática esperada também é afirmativa: um “correria” geralmente acompanhado de uma bufada, um olhar pensativo para baixo e o comentário de complemento “é, não é fácil” ou “não dá para parar”.

Sempre que lembro, procuro quebrar esta convenção e responder o contrário. Quando vem um “correria?”, respondo algo como “Nããão, tá tranquilo” ou tentando parecer mais descolado solto um “Tá suave”. É um pequeno protesto contra a glamourização do agito, do estresse.

Geralmente, a resposta provoca um estranhamento. Uma pergunta se os negócios vão bem ou um comentário do tipo: “Ah! Empresário, nééé? Tá com a vida ganha”. Estar de boa, de repente, deixa de ser normal. Para muitos é coisa de vagal.

Os encontros de corredores e a “correria” não marcam apenas as breves conversas, são sinais de algo maior e atual: a dificuldade que temos em não fazer. Em geral, estamos sempre fazendo alguma coisa ou procurando algo para fazer. “É, não dá para ficar parado!”. É como se a vida perdesse a utilidade quando não colocada em função prática.

Assim, entramos em um ritmo acelerado e cada vez mais comum à nossa volta. Jornadas longas de trabalho. Deslocamentos. Academia. Lazer. Reunião atrás de reunião. Uma agenda preenchida. Espaços livres parecem falhas. A respiração é ofegante. O ritmo frenético. A vida corrida. E há um glamour nisso tudo.

Merece até um registro em tempo real nas stories do Instagram.

Mas se o trajeto da vida tem ponto final e é tão curto, será que faz sentido correr tanto? Em alta velocidade, a paisagem fica distorcida. Podemos nos achar muito produtivos/produtivas por utilizar cada minuto para realizar dezenas/centenas de atividades por dia, algumas simultâneas. Mas será que estamos realmente produzindo algo ou apenas passando o tempo?

Particularmente, preciso me policiar para não entrar nesse ritmo. Já houve um tempo em que me culpava até por dormir, o sono era um tempo perdido. Mas venho trabalhando numa mudança de percepção. Certo dia, por recomendação do meu terapeuta, decidi viver um dia “Jacaré”.

O oposto da correria. O gasto mínimo de energia. Um dia aparentemente inútil, mas que definitivamente me colocou de volta aos trilhos. Comer, tomar sol e olhar as árvores se mexerem por um bom tempo me fez lembrar de que não sou o que faço, mas o que sou. O reconhecimento do nosso ser pode ficar distorcido com tanta velocidade, tanta atividade.

Geralmente, por baixo disso tudo, a gente é bem mais belo/a.

A vida é boa demais para ser vivida na “correria”. Que a gente possa realizar nossos projetos e sonhos, mas sempre com tranquilidade. Com tempo e calma o bastante para respirar e curtir o passeio. Que a gente não deixe o corrido ser a normalidade. A vida é suave. O tempo não para, mas a gente sim.

Pare. Respire. Contemple.

Por que não agora? A vida fica melhor de ser vivida.


Esse texto faz parte do projeto #OhHappyMonday e foi enviado, por email, dia 06/11. Se você também quer receber novidades em primeira mão, ganhar descontos e participar de eventos exclusivos, clique aqui.

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