Acontece sempre ao meio-dia. Na sala com iluminação reduzida, o grupo se reúne. Aos poucos, cada um se acomoda em uma posição confortável, entre almofadas. Todos fecham os olhos e se concentram nas próprias respirações. Por vezes, eles mentalizam a praia preferida e pensam que tocam a água gelada. Em outras, ficam em silêncio, prestando atenção a seus pensamentos. Menos de meia hora depois, a turma abre os olhos e se levanta. Pronto. Todos estão renovados para encarar o resto do dia de trabalho – que, aliás, os aguarda do outro lado da porta.

É assim que funciona o grupo de meditação do Google. De segunda a sexta, antes do almoço, até 15 funcionários do site de buscas se isolam por 20 minutos em uma sala, que lembra uma choupana, na sede da empresa, em São Paulo. Nesse período, essa pequena turma se dedica a exercícios que buscam acalmar a mente e aumentar o foco. Quem participa dessas sessões garante que, após as pequenas pausas, tem um dia mais produtivo e menos estressante.

Hoje, a esse tipo de atividade dá-se o nome de mindfulness. A expressão foi traduzida no Brasil como “atenção plena”. Ela tem origem na meditação budista. No mindfulness, contudo, ela é dissociada do cunho espiritual ou religioso geralmente vinculado à prática. A técnica despertou o interesse de acadêmicos nos Estados Unidos durante os anos 70. Começou a ter seus efeitos pesquisados por Jon Kabat-Zinn, da Universidade de Massachusetts, e Ellen Langer, de Harvard. Kabat-Zinn criou um programa de redução de estresse baseado na meditação mindfulness e fez pesquisas na área da saúde, estudando sua utilização em pacientes com câncer e doenças crônicas. Já Ellen abordou o conceito como o ato de prestar atenção ativamente e o desvinculou da meditação.

Nos últimos dez anos, o mindfulness vem avançando sobre o ambiente corporativo. Hoje, a seguradora Aetna, o LinkedIn, a gestora de fundos BlackRock e o banco Goldman Sachs estão entre as companhias que aderiram a esses exercícios nos Estados Unidos. No Brasil, o método ainda é pouco conhecido. O Google é uma das poucas empresas a adotá-lo, ainda assim por influência da sede americana.

NESTOR SEQUEIROS, PRESIDENTE DA MEAD JOHNSON NUTRITION (À ESQ.), PAGA 80% DOS CURSOS DE MEDITAÇÃO PARA OS FUNCIONÁRIOS. JANICE MARTURANO (À DIR.), APRESENTOU SEU TRABALHO SOBRE MINDFULNESS NO FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL, EM DAVOS (FOTO: CAMILA FONTANA E DIVULGAÇÃO )

Efeito na produtividade

E o que justifica o interesse crescente pela técnica? Em muitos casos, a prática de mindfulness é mais uma opção oferecida pelos programas de bem-estar das empresas – assim como aulas de ioga ou descontos em academias de ginástica. Alguns adeptos, no entanto, enxergam benefícios também para as companhias. Um deles é a possibilidade de aumentar a produtividade.

Um estudo de Harvard, publicado em 2010, mostra que, de todo o tempo que permanecemos acordados, quase a metade dele (47%) é gasto com a mente no “mundo da Lua”. Ficamos dispersos. Isso, ao longo de um dia, não só prejudica o trabalho, mas pode nos deixar infelizes. “Geralmente, a nossa mente fica presa remoendo o passado ou se volta para um futuro distante”, diz o psicólogo Armando Ribeiro, que tem especialização em mindfulness. É esse comportamento que a técnica pretende combater. Com as breves pausas, os praticantes supostamente desenvolvem a capacidade de prestar mais atenção ao momento presente – o bom e velho “aqui e agora”. Daí, o eventual ganho de produtividade.

O Google é uma das empresas mais engajadas não só em oferecer a meditação mindfulness para os funcionários como também em difundir o tema por outras companhias. Quem começou a pesquisar o assunto na empresa foi o engenheiro Chade-Meng Tan, um dos primeiros funcionários do gigante de buscas. Por interesse pessoal, Meng passava parte do seu tempo lendo estudos sobre o comportamento humano. Além de mindfulness, investigou teses sobre inteligência emocional e neurociência. Até que, em 2007, criou um programa que mistura aspectos das diferentes áreas de pesquisa. O pacote foi batizado de Search Inside Yourself (SIY).

O programa do SIY consiste em dois dias inteiros de palestras e orientações sobre técnicas para a busca desse estado de atenção plena. Depois de testar e aprimorar o modelo no Google, Meng uniu-se ao empresário Marc Lesser e a Philippe Goldin, professor de psicologia de Stanford. Em 2012, o trio fundou o Instituto SIY. Desde então, a técnica criada pelo engenheiro tem se difundido pelas filiais da empresa ao redor do mundo e por outras companhias.

Meng não é o único propagador do assunto no mundo corporativo. Uma das principais precursoras da técnica é a americana Janice Marturano, criadora do instituto Mindful Leadership. Ela trabalhou durante 15 anos na General Mills, dona de marcas como Häagen-Dazs e Yoki. Depois de incorporar a técnica de mindfulness em sua vida, passou a treinar colegas de trabalho e executivos de outras empresas, como a Procter & Gamble. Em 2012, quando resolveu se dedicar ao instituto, 1,4 mil profissionais já haviam recebido suas lições.

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Dividir os problemas em partes

No Brasil, o termo mindfulness ainda é pouco conhecido. Um dos adeptos do grupo do Google no país é o engenheiro Tomás Nora. Até dois anos atrás, ele se considerava extremamente estressado. “Não vivia o momento presente”, afirma. Praticar meditação era uma opção que não fazia parte de seu repertório. Só prestou atenção no assunto depois de passar por uma cirurgia em decorrência de uma inflamação intestinal crônica. “Percebi que se eu não parasse intencionalmente, meu corpo pararia por mim.” Por indicação da esposa, leu estudos científicos sobre mindfulness e resolveu fazer um teste. Hoje, a prática faz parte de sua rotina e ele sente os benefícios no desempenho profissional. “A meditação ajuda a dividir os grandes problemas em pequenas partes”, diz. “No fundo, é o que os engenheiros já fazem.”

Além do mindfulness, há diversas práticas similares chegando às empresas. Uma delas é a meditação transcendental. A diferença entre ambas está em detalhes: para se concentrar, em vez de focar na respiração, por exemplo, o praticante da segunda mentaliza repetidas vezes uma determinada palavra – um mantra.

Para alguns, o mindfulness é apenas uma solução “fast-food” contra o estresse

Essa foi a técnica que chamou a atenção de Nestor Sequeiros, presidente no Brasil da multinacional Mead Johnson Nutrition, que fabrica produtos como Sustagen. Ele conheceu os exercícios meditativos quando trabalhou na Ásia. Acompanhou a experiência de uma fábrica da empresa na Índia, que oferecia meditação diária aos 250 operários. Para complementar o programa, havia aulas de ioga duas vezes por semana. Depois da implantação das técnicas, durante dois anos, não houve nenhuma falta entre os funcionários e a produtividade aumentou em 15%.

Desde 2012, ele começou uma experiência no Brasil. Hoje, paga aos funcionários interessados 80% do curso de meditação transcendental. Dentro do escritório, é rotina diminuir as luzes duas vezes por dia, durante 20 minutos. A ambientação é um convite para quem quiser fazer sua pausa em silêncio. Os benefícios descritos pelos participantes vão desde dormir melhor até uma gestão mais eficiente do tempo no trabalho.

Em abril deste ano, outra companhia, a brasileira Mercur, fabricante de produtos tão variados quanto pisos e bolsas de água quente, passou a oferecer meditação para os funcionários. Os interessados reúnem-se por 15 minutos uma vez por semana. Também passaram a praticar meditação antes de algumas reuniões, como as de planejamento estratégico. Segundo Luiz Neumann, coordenador de processos de produção da Mercur, a iniciativa partiu dos funcionários. Eles entenderam que isso poderia melhorar o relacionamento entre as pessoas na empresa. Ainda é cedo, porém, para saber os resultados.

Não é para todos

É claro que nem todo mundo quer passar 15 minutos entre exercícios de meditação. Para muitos, esse tipo de atividade soa como perda de tempo e a empresa é um ambiente inapropriado para praticá-la. “Tem limitações. Algumas pessoas vão achar isso chato ou cansativo”, afirma Tiago Tatton, psicólogo com especialização em mindfulness.
Em tom de brincadeira, a imprensa americana popularizou o termo McMindfulness, comparando a onda da “atenção plena” a uma solução fast-food contra o estresse. Em um artigo recente da Harvard Business Review, o psiquiatra David Brendel afirmou que uma de suas clientes passava tanto tempo meditando (e aceitando a vida como ela era) que não foi capaz de lidar com funcionários que não entregavam resultados. “A meditação deve ser usada para reforçar, e não deslocar o pensamento racional e analítico das pessoas sobre suas carreiras e vidas”, escreveu.

A questão que fica é: afinal, funciona ou não? Para muitos, sim. Steve Jobs, por exemplo, meditava. Ao seu biógrafo, Walter Isaacson, ele disse que o exercício de ouvir os próprios pensamentos e tentar acalmar a mente aflorava a intuição, permitia enxergar as “coisas” (leia-se tudo) com mais clareza. Ou seja, com base no que ele produziu, mal não deve fazer. Vai ver que, por isso mesmo, essa onda de “meditação corporativa” só faz crescer.

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Fonte: Época Negócios

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