No evento que marcou a mudança da A Grande Escola para o Nex, um espaço incrível aqui em Curitiba e com muito conforto: estacionamento privado, Rause Café e uma varanda para chamar de sua nas nossas aulas, choveu para caramba e ainda era uma sexta-feira 13, mas isso não impediu que a noite de festa fosse de uma atmosfera muito legal. Foi especial. E as nossas convidadas, que compartilharam aprendizados obtidos com experiências únicas de vida, abrilhantaram ainda mais nosso pequeno ritual.

Uma delas me tocou lá no fundo, acredito que não só a mim. A Verônica foi um show à parte. História de vida inspiradora. Aprendizados para uma vida inspiradora. Um astral e humor raros. Verônica é fundadora do Instituto Unidos pela Vida e Portadora de Fibrose Cística, uma doença descoberta aos 23 anos de idade. Verônica, mais do que isso, é principalmente uma mestre do olhar. Percebe beleza e alegria onde, em geral, muita gente não enxergaria. E faz a gente enxergar.

A fala de Verônica me colocou em contato com a lembrança de uma experiência que vivi aos 19 anos de idade e, confesso, não pensava sobre há muito tempo: a quase morte. A fala bem humorada dela em relação ao Hospital Santa Cruz, que lhe recebeu por bons e difíceis dias, me fez lembrar do tempo que também passei por lá e de uma passagem em particular: uma duríssima e cansativa caminhada de não mais do que 10 metros até a janela do quarto e o olhar de uma Avenida Batel (na época, o grande point de Curitiba) fervilhando.

Por pouco que não estava olhando a Avenida do céu ou outro planeta, quando duas semanas antes eu estava justamente nela, sem imaginar que em pouco tempo a enxergaria sob outro ponto de vista.

Eu quase morri. E foi estranho. Na época não teve tanta dor, sintoma, as coisas aconteceram rápido. O que me fez perceber que morrer não é um acontecimento tão incomum, pode acontecer quase que em silêncio. Como uma conversa que damos pouca atenção ou um estranho que cruza a nossa frente sem repararmos.

Após a recuperação, tive algumas dezenas de conversas sobre o assunto. Até hoje, quando relembro do episódio, muita gente arregala os olhos e procura saber mais. A morte é um mistério, ter contato com alguém que a viu de perto fascina. É quase como conversar com alguém que pisou na Lua ou visitou as 7 maravilhas do Universo. Alguém que deve ter algo a ensinar. Se esse alguém é jovem, onde o contato com o outro lado é menos frequente, a curiosidade é ainda maior.

Na maior parte das vezes, frustei as expectativas. Não tinha ensinamento algum. Vi a morte de perto e não aprendi nada. Vi a Lua de perto, mas não tirei fotos. O máximo que poderia dizer sobre toda essa experiência é que foi vantajoso pelo aspecto de que pude assistir a Copa de 2006 na íntegra. Mais nada a dizer. Eu mesmo me decepcionava com isso. Fui até lá e não trouxe nenhuma verdade, nenhuma convicção para a minha própria vida. Sentia que havia desperdiçado a chance de aprender algo valioso.

Uma citação um biscoito chinês cruzou minha vida há um bom tempo, ele dizia: “os dias desconhecem coisas que só os anos sabem”, algo assim. Com a minha quase morte foi por aí. Os ensinamentos vieram muito tempo depois. E continuam acontecendo. A fala de Verônica reabriu este canal. A cada visita à essa lembrança, um novo sentido. Minha última passagem me trouxe o insight de que cada cena que vivemos possui pelo menos uma dezena de ângulos. É possível viver uma cena ou assistir a um filme pela quinta vez, vivenciando algo completamente novo, sentindo uma emoção nunca experimentada.

A caminhada até a janela do hospital, que na hora foi pura dor, também já foi uma metáfora da fragilidade da vida. E agora é a lembrança de que a vida segue em frente. Para Verônica, o aniversário no quarto do hospital, que talvez para algumas pessoas que viram a foto tenha sido um indício de uma memória triste, para ela foi um baita festão. A quase morte, que para alguns é quase fim, para outros torna-se nova vida. O que é aprendizado para um é mais um dia para outro. Depende do olhar.

Hoje pela manhã voltei a olhar aquela janela, aqueles passos, aqueles dias. Com o olhar de hoje absorvi um novo significado. Aquela olhada na janela era um recomeço. Eram os primeiros passos após dias na cama. Ao acordar hoje, em casa, fiz algo parecido. Eram os primeiros passos após horas de cama. Mas também uma nova vida que começava. Pensei: “talvez toda noite de sono seja uma quase morte e todo despertar uma nova vida. Que vida vou viver?”. Temos uma capacidade infinita de olhar e reaprender com nossas experiências.

A história de Verônica me inspirou. Me inspirou também a revisitar as minhas.

A visita a minha quase morte que na época não me ensinou nada, hoje me ensinou muito. Deixou meu dia melhor.


Esse texto faz parte do projeto #OhHappyMonday e foi enviado, por email, dia 09/10. Se você também quer receber novidades em primeira mão, ganhar descontos e participar de eventos exclusivos, clique aqui!

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