O final do ano está aí. Tão perto que já é possível encontrar panetone no supermercado. Assustador, não?

Quando o tempo passa rápido assim fica difícil entender exatamente como chegamos até aqui. Traços importantes da vida são atropelados, vividos sem atenção ao significado que só aparece quando olhamos no calendário e pensamos: passou.

Vivemos um ritmo tão acelerado que parecemos estar em uma dimensão aleatória ao tempo, sendo assim, incapazes de senti-lo passar, salvo os momentos de choque: o olhar no espelho, calendário e, principalmente, o encontro com rastros do passado.

Ontem, forçado por um ataque de traças e um pedido do meu pai, dei uma pausa naquilo que considerava uma prioridade para limpar gavetas e armários do meu antigo quarto. Voltar ali foi como me encontrar fisicamente com o passado.

Fiquei assustado com a velocidade com que o tempo passou. Não posso acreditar que muitas das minhas memórias mais frescas já tem 10, 15, 20 anos. Não consigo entender como 20 anos passaram desta maneira, as vezes parece que foi menos, as vezes parece que foi mais. Me senti desconectado do tempo.

Até certo tempo atrás (aliás, muito tempo, já se vão quase 2 anos desde as últimas passadas) tentava levar a corrida de rua como um hobby. Não somente pelo corpo e pelo jogo, mas principalmente pelo tempo e pela mente. Em dias em que os deslocamentos são feitos de carro e avião, em que as distâncias são encurtadas por cabos e conexões sem fio.

Facilmente perco a compreensão da minha natureza orgânica, do ritmo de decomposição, da condição. A corrida funcionava como uma terapia neste sentido. Percorrer os quilômetros de um treino ou prova tão somente com minhas pernas, resistência física e respiração, me deixavam em paz com o tempo, me permitiam o encontro com ele. O tempo corria na velocidade que devia e meu corpo era capaz de acompanhar.

Encontrar objetos do passado é uma experiência parecida, permite tal conexão, mas não mais com um tempo que é, mas que foi. O que pode trazer uma certa angústia, uma certa nostalgia. Mexer nos papéis aperta o peito, mas ao mesmo conforta. Efetivamente, são umas das raras provas que tudo aquilo existiu. São rastros de uma vida que validam e evidenciam o tempo, uma vez que está cada mais difícil andar no compasso dele.

Por outro lado, este contato com os objetos do passado trazem um outro questionamento: será que precisamos deixar tantos rastros assim? Ao mesmo tempo que me encantava pelo contato com o passado, me culpava pelo excesso de materiais que deixei. Manejar sacos e mais sacos, não conseguindo me desfazer de muitas das coisas, me deixava pesado.

Já pensou se você tivesse que caminhar por aí carregando tudo o que te pertence, todo seu rastro físico? Seria impossível. Ao longo da vida, a partir do acúmulo, vamos nos tornando insuportavelmente pesados. São as gavetas e contêineres de armazenamento que nos salvam, nos permitem dar uma volta. Mas hora ou hora acabamos tendo que voltar à tudo aquilo que nos prende, mas que também significa, seja para limpar ou contemplar.

Hoje, talvez cansados deste acúmulo, nós como geração (e aqui cabem muitas exceções) estamos em movimento de nos livrar deste peso. Postagens que somem sozinhas em 24 horas e perdem-se no cemitério de dados. Viagens não mais transformadas em álbuns de fotografias. Bilhetes e cartas substituídos por comunicações efêmeras e eletrônicas. Pastas e pastas que agora moram na nuvem.

Sinto que cada vez mais (falo por mim, pelo menos) temos vivido mais experiências, conhecido mais pessoas, trocado mais palavras, visitado mais lugares, mas deixado menos rastros. Amigos e amigas cada vez mais optam pelo menos. A vida que cabe em uma mala. O fim da caixa de recordações.

Penso que talvez não seja à toa que o tempo pareça passar mais rápido e a chegada do panetone às lojas nos pegue de surpresa, mesmo que depositado nas gôndolas em um cronograma regular. Cada vez mais longe de rastros e evidências do tempo, nos desprendemos dele. Para viver mais leve pelo mundo? Ou para voar para longe de um sentido e significado nas coisas?

Sinceramente, não cheguei a conclusão se é melhor acumular ou se livrar. Se apegar ou destruir. Salvar nosso passado das traças ou deixar que elas o devorem. Não sabendo, me livrei de papéis, guardei outros. Revivi memórias e abri a porta da rua para outras. Me assustei com a chegada do final do ano, mas nem tanto. Fiquei em cima do muro, olhando para os lados e procurando respostas de como me relacionar com o tempo.

Ainda não decidi se devo segui-lo ou superá-lo.

Você já sabe o que fazer? Você tem deixado rastros da sua existência ou vivido de forma mais efêmera? E tem sido mais leve?

Você tem visto o tempo passar ou se surpreendido com os panetones nas lojas? Você quer acelerar ou acalmar o ritmo? Você quer sentir o tempo passar ou quer apenas que lhe informe quando ele acabar?


Esse texto faz parte do projeto #OhHappyMonday e foi enviado, por email, dia 18/09. Se você também quer receber novidades em primeira mão, ganhar descontos e participar de eventos exclusivos, clique aqui!

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